A Interpretação dos Sonhos, para além dos manuais
- Renato Essenfelder

- 1 de fev.
- 4 min de leitura

Ainda adolescente, um belo dia trombei acidentalmente com um livro que me chamou a atenção, na estante de casa. O título era “A Interpretação dos Sonhos”. Apesar de ser um calhamaço respeitável, eu, na curiosidade e pretensão dos meus 14 ou 15 anos de idade, julguei que isso não seria empecilho. Se eu tinha sonhos tão interessantes — tão, digamos, míticos —, queria saber o que eles significavam.
Do autor do livro eu já ouvira falar, é claro, e sabia que era um sujeito muito importante, um pensador revolucionário, dos maiores da história.
Tendo mais de um psicólogo na família, sabia mais ou menos quem era o doutor Sigmund Freud que a capa anunciava.
É claro que eu não estava pronto para o que viria. Esperava algo fácil, uma espécie de manual ou dicionário de sonhos, desses que a gente às vezes vê pelos alfarrábios e bancas de jornal. Esperava uma coisa assim: sonhou com dentes moles, está dando início a uma nova fase em sua vida, de crescimento interior. Sonhou com cobra, será traído por alguém. Queria respostas fáceis, rápidas, diretas.
Quem tem o mínimo de contato com a psicanálise já sabe que eu não encontrei nada do que esperava. Não encontrei nenhuma resposta, para ser honesto. Só encontrei mais perguntas e provocações — e sigo encontrando-as, cada vez melhores.
Li algumas dezenas de páginas, sem muita disciplina, e abandonei o projeto. Não estava pronto para aquilo.
Quase trinta anos depois, já vou para a terceira leitura de A Interpretação dos Sonhos, e não é apenas força de expressão dizer que a cada revisita descubro algo novo.
Logo no primeiro parágrafo da obra, publicada em 1900, o autor demonstra toda a sua ambição:
Nas páginas que seguem, apresentarei provas de que existe uma técnica psicológica que torna possível interpretar os sonhos, e que, quando esse procedimento é empregado, todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília.
No primeiro capítulo, Freud elabora uma espécie de historiografia do sonho. Conta que, na pré-história, os sonhos eram vistos como mensagens divinas, capazes de prever o futuro.

Em algum momento do século II, um homem de nome Artemidoro de Daldis percorreu as estradas do Império Romano colecionando sonhos. Era um tempo em que os deuses, vivíssimos e vivazes, ainda sussurravam ao ouvido dos homens, e as noites eram povoadas por presságios.
Artemidoro ouvia pescadores e mercadores, soldados e nobres, mendigos e sacerdotes. Ele não buscava apenas relatos, mas padrões, significados, uma lógica que unificasse as visões fragmentadas que povoam o sono humano. Acreditava que havia, naquele conjunto aparentemente aleatório de imagens, um sentido profundo.
Artemidoro queria desenvolver um método. Dizia que os sonhos não falavam da mesma forma a todos. A história do sonhador é fundamental para compreender a mensagem.
Para ele, os sonhos dividiam-se em duas grandes classes, o sonho como reflexo do presente e do passado ou como um presságio do futuro.
Mais de mil anos depois, Freud redescobriria na linguagem dos sonhos um portal para os desejos mais ocultos da alma.
Freud reconheceu no antigo grego um precursor involuntário da psicanálise.
Havia ao menos duas lições preciosas em Artemidoro, que ainda hoje costumam ser ignoradas.
Os sonhos têm significado. A questão é como chegar a ele, pois sua linguagem é cifrada.
O significado é dado pelo sonhador.

O sonhador interpreta o sonho ou, dito de outra forma, o sonho interpreta o sonhador. Essa é uma das contribuições mais importantes dos antigos, que Freud confirma na sua clínica psicanalítica. Isto é, embora haja alguns símbolos que podem ser associados a certos significados, afinal, vivemos todos numa certa cultura, de um certo tempo, na maioria dos casos as coisas com que sonhamos terão um sentido muito único e particular.
É por isso que os manuais de interpretação dos sonhos, como eu queria encontrar na minha adolescência, são de pouca utilidade. Uma cobra para mim pode evocar algo completamente diferente do que uma cobra para você, leitor(a).
Cada um tem a sua cobra, os seus dentes moles, as suas asas e a sua nudez.
Freud, homem de rigorosa formação científica, não concordava com a hipótese dos sonhos poderem prever o futuro. No máximo, poderiam reavivar memórias e fornecer insights sobre eventos que escaparam à nossa consciência.
Em outras palavras, um sonho que informa sobre algo que irá acontecer, e que depois se confirma, pode, por exemplo, estar apenas juntando as pecinhas de uma série de pequenas sensações que a gente teve ao longo do tempo, mas às quais não prestamos atenção, não registramos conscientemente.
Parece magia, a mão divina, mas é o inconsciente: atento a tudo, o tempo todo, realizando o seu trabalho.
E parte do seu trabalho, com os sonhos, é proteger o nosso sono e nos ajudar a aliviar certa tensão psíquica que acumulamos com nossos desejos reprimidos e conflitos internos, ao longo da vida — e especialmente na infância.
Depois de extenso e minucioso estudo, Freud chega à sua conhecida formulação:
O sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido).
Para Freud, estudar e analisar os nossos sonhos (e todo mundo sonha) era o melhor caminho para conhecermos melhor nossos desejos inconscientes.

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